terça-feira, 1 de junho de 2010

Costume de olhar

Desenvolvi uma técnica meio zen que consiste em fechar os olhos e andar uma longa distância no escuro. A minha teoria é que andar de olhos fechados é muito similar a andar pela vida. A gente nunca sabe o que virá, mas precisa seguir, precisa acreditar que vai dar tudo certo e que, no final, atingiremos nosso objetivo.

Acho que andar no escuro tem a ver com confiar na sorte ou na providência divina. Tem a ver também com não temer obstáculos, sabendo que a intuição sempre nos guia. Se viver é um salto no abismo do não-saber, a minha técnica consiste em ensinar a mente a calar e deixar o corpo saltar.

Às vezes, é meio constrangedor, porque o melhor lugar para fazê-lo é onde ando todos os dias. Por ali, circulam centenas de pessoas. Já abri os olhos segundos antes de esbarrar em alguém. Dá para explicar o que se passa? Nem tentei.

Tem sempre um momento em que eu digo: “Ai, que medo! Não vou dar conta.” Mas insisto, porque a gente sempre consegue dar mais um passo.

Essa era a minha teoria. Era, porque hoje mudou. Foi assim: fechei os olhos e andei. Ao abri-los, percebi o verde em volta com uma nitidez arrebatadora, e o brilho do sol na água, a sombra das árvores, as cores das roupas, o andar das pessoas. Eu estava no final da minha caminhada e só naquele momento o real me tocou.

Percebi que temos o costume de olhar e não ver. Será que eu vejo o crescimento da àrvore? Será que eu vejo a favela e seu significado? Ou será que prefiro não ver? Será que eu olho e não vejo o homem que dorme debaixo do banco? Será que eu não vejo para não sentir o frio expresso no corpo encolhido? É, não dá para olhar tudo. Mas vou continuar andando às cegas por alguns segundos para enxergar melhor o mundo.